sexta-feira, janeiro 21, 2022

 

 

Eu e o híndi


The feeling inside is not of emptiness but a peculiar fullness of lack. 

~ Kazim Ali, na segunda parte (Absence of Stars: A Fasting Journal) do livro Fasting for Ramadan: Notes from a spiritual practice 

 


Como aprender híndi? Que material usar? Minha primeira ideia foi o Assimil, não só porque já o conhecia e sei como funciona e o acho ótimo, mas também porque atenderia perfeitamente aos meus anseios, que se resumiam a dar conta de compreender a língua falada na minha novelinha. Dele descobri que o material de áudio da versão alemã (que tenho disponível com livro, CDs e mp3 nas bibliotecas circulantes daqui) é o mesmo da francesa, o que é muito conveniente, pois da francesa conseguiria e consegui o pdf em segundos, da alemã podia reservar um exemplar e usar/ter os áudios.

Mas Everton que é Everton nunca vi aprender língua nenhuma com um livro só. A pergunta seguinte foi: o que será que tem em alemão? Participando de uma palestra pela Volkshochschule sobre arte na Índia (um panoramão que propunha uma pincelada dos primórdios até Bollywood, mas de que eu não acompanhei nada, porque a palestrante era muito chata), fiquei sabendo, de uma das pessoas na “turma” do curso de híndi na VHS (que não me interessava em nada, porque, depois dos milhares de cursos de alemão que fiz assim que cheguei, acho que nunca mais quererei fazer curso de línguas em grupo). Os cursos que usam são ou o Hindi bolo ou o Hindi de uma coleção chamada Lextra que tem vários livros de introdução a línguas. Do primeiro desisti de imediato, porque era uma gramática com exercícios que se diz curso de língua. Fiquei horrorizado com o que vi nas páginas de amostra que achei disponíveis no site da editora. (Devia escrever sítio, é bem mais chique.)

A história com o segundo, Hindi Sprachkurs Plus – Anfänger, nome e sobrenome, foi bem mais cheia de meandros e de diversão no caminho. Fui direto à Amazon para ter ideia do preço dele e ver se havia páginas para a visualização. Achei o preço já bem salgadinho, não havia páginas para visualização, no sítio da editora nenhuma informação sobre o livro. Então resolvi fazer algo que raramente faço, que é ler os comentários dos que tinham comprado o livro. O primeiro começava assim: “O livro é uma completa catástrofe”. Risos. No meio da noite, lembro. Depois das dez todas as minhas gargalhadas são contidas ou explodem estranguladas no corpo do travesseiro, por causa da “lei do silêncio” que, aqui, graças a Deus, funciona. Continuei. Um moço que faz algo como “Letras – Híndi” (Indologie) se questiona como o livro poderia servir para o que diz se prestar, pra autoaprendizagem, se em várias aulas os professores da universidade precisavam corrigir erros de diversa ordem (sobretudo de tipografia) na edição. A terceira recensão foi a melhor. Bem alemã também, eu diria. A pessoa descreve a sua perplexidade com os erros encontrados no livro e passa então a narrar (eis o que acho tipicamente alemão) seu contato com a editora, por via escrita, para apresentar o problema (na resenha usam-se palavras do naipe de “pane” e “trabalho porco”). A resposta foi uma desculpa esfarrapada de uma voluntária, a serviço da editora, que teria basicamente atribuído os muitos erros da tradução à edição original em inglês. Novo rompante: a resenhadora se frustra imensamente com o não recebido pedido de desculpas pelo disparate que tem em mão, além de um voto de “divirta-se com o aprendizado”, em vez de um ressarcimento com oferta de aplacamento da fúria da cliente irada. Eu ria a bandeiras despregadas com a coisa toda, não com o escândalo habitual e que aqui seria totalmente merecido, mas numa versão silenciosa, ou melhor, abafada, como já expliquei.       

Uma coisa boa descobri com essas resenhas: o original é de uma coleção inglesa de que gosto muito, Teach Yourself. Assim como o da Assimil, o material de latim dela já tinha sido fonte de inspiração didática pra mim. Usei durante muito tempo o material de iniciantes para o latim, que vai ensinando a língua com uma novelinha que se passa na Idade Média, com um monge chamado Paulo, um burrinho, um mosteiro e bárbaros como protagonistas. A Teach Yourself tem, há algum tempo, dividido seus livros entre material introdutório e o que eles chamam de “curso completo”. Depois de muito rodar e baixar alguns pdfs, descubro em qual dos dois “níveis” se inscreve o curso de híndi que se propõe ensinar a língua por meio de uma novelinha que, leio em comentários sobre o livro, se assemelha aos filmes de Bollywood. Que outro método poderia ser melhor? Mais risos. Para a minha sorte, encontro em uma livraria de usados o livro por uma bagatela e os CDs usados em outra via — a felicidade que é viver num país onde todo o mundo pega o que já não serve em casa e põe à venda por preço de banana, mesmo que esteja novinho em folha.

Calculados os tempos de frete de livro e CDs, além do tempo que levaria para ter acesso ao material do Assimil, vi que não era suficiente, porque na madrugada do domingo para a segunda a gente tem pressa. Haters diriam que era a obsessão falando mais alto, mas eu sei que era só um empenho em tempo real. Bem, foi com esse empenho que achei, nanétchi, um curso em podcasts. Ri pra dentro quando me lembrei de um amigo meu que voltou pro Brasil faz pouco, depois de anos morando aqui: assim que cheguei, não era chegado a podcasts, e ele me disse que com o tempo me acostumaria e passaria provavelmente a acompanhar alguns. Isso virou realidade, assim como o hábito de tomar chá, pasmo até hoje, (às vezes) sem açúcar. No caso específico do curso Hindipod 101, me interessa também, como professor de línguas, qual seria a “proposta metodólogica”, como se virariam pra ensinar uma língua só com áudio, uma curiosidade que já tinha tido há uns vinte e cinco anos, quando ouvi falar pela primeira vez em métodos áudio-orais, coisa com que nunca tinha tido contato...

... até agora, porque hoje comecei já a décima terceira lição desses podcasts. O curso de “iniciantes totais” tem cinquenta lições, podcasts curtinhos, que até agora não vi passar de doze minutos cada um. É tudo muito organizado: apresentação do que se vai aprender, um diálogo, diálogo em velocidade reduzida, diálogo com tradução, nota cultural, vocabulário, gramática, retomada do ponto principal da lição e conclusão. O aplicativo também oferece uma série de recursos que fazem a minha felicidade nessa minha primeira vez de aprendizagem de uma língua sem nenhuma pretensão acadêmica ou grandes esforços escolares. Eu ouço o podcast na ida, no metrô, e faço um ou outro dos exercícios na volta, também no metrô. No dia em que pego o metrô de novo, reouço o podcast da lição e passo à seguinte. Já entendi até frases inteiras na novelinha e mesmo em filmes aqui e ali. Como complemento que uso muito esporadicamente, sentado em casa, ouço as lições do Assimil (ainda não passei da terceira) e faço, sempre oralmente, os exercícios de lá. O material do Teach Yourself pressupões que se saiba o devnagari, aquelas letrinhas bonitinhas do sânscrito, então eu praticamente não o uso. Ainda. Mas já comprei uma cartilhinha e estou me alfabetizando.

domingo, janeiro 09, 2022

 

Ganexa, o removedor de obstáculos



As novelas mexicanas, que são quase uma tradição no Brasil, com aqueles dramalhões, interpretações exageradas e enredos com reviravoltas absurdas nunca fizeram mais parte do meu cotidiano que numa ou noutra referência que tenha virado moda (o que hoje eu chamaria de meme) na minha adolescência (mas eu obviamente sei quem é Talia, com muita honra). Há pouco tempo, vi pelo Netflix um seriado chamado Jane, a virgem, que eu descreveria como uma leitura americanizada dessas telenovelas. Foi muito divertido e enriquecedora a experiência. Uma coisa que ficou bem marcada pra mim foi quando comentaram da tendência dessas novelas de apresentar eventos em cenários exóticos que acabam sendo representados por uma tela pintada ou uma montagem bastante, digamos, pouco convincente. Tudo isso compõe uma breguíssima estética do absurdo e do exagero que, sinceramente, não me cria nenhuma aversão. A prova:


Acho que por volta de agosto, o meu fascínio com odissi e com a mitologia indiana me fizeram descobrir Vighnaharta Ganesha, um seriado (novela?) que parece estar todo disponível no YouTube. É difícil definir, porque a atuação é exagerada e os cenários são montagens digitais nada críveis, numa (pros meus olhos) quase reprodução da breguíssima estética do absurdo e do exagero das telenovelas mexicanas; o enredo progride lentamente (o nascimento do próprio Ganexa leva uns cinco episódios), o que me faz pensar em algo como as séries coreanas que já vi ou uma e outra cena dOs Cavaleiros do Zodíaco com que esbarrei; vi que o seriado já está pelo milésimo episódio e já está na programação da Sony India desde 2017, muito parecido com o que acontece com as séries norte-americanas e suas temporadas.

Vi todo o primeiro episódio extasiado, achando tudo muito diferente e fofo e feio. E lindo. Quando começou o segundo episódio, no automático do YouTube, as legendas desapareceram. O seriado-telenovela é em híndi, e o primeiro episódio tinha legendas (ruins, mas bastantes) em inglês, geradas por CC. Vi o segundo episódio com tremenda frustração; fiz, depois, algo que nunca faço: deixei um comentário em que perguntava se alguém sabia me explicar como “se ligavam” as legendas, porque eu não sabia o que tinha acontecido com o botão CC e estava muito frustrado de não poder ver a sequência. Esse foi o primeiro capítulo desta minha telenovela. Também li alguns dos comentários. Particularmente marcantes foram: (1) alguns que faziam uma prece a Ganexa, para que o deus removesse esse obstáculo e fizesse aparecer as legendas, amém; (2) de alguns (que suponho fossem norte-americanos) soltando as cachorras porque o seriado não tinha legendas em inglês, como se supunha que eles vissem isso, é o fim da picada, eu exijo, etc.; (3) uma brasileira que pedia, encarecidamente, que pusessem legendas em português do Brasil (seu pedido estava, obviamente, redigido em PB).  

No final de outubro aconteceu a India Week de Hamburgo, um evento que reúne programação cultural e comercial e que é, pra mim, uma fonte rica de listas e mais listas de coisas pra ver e visitar e ouvir e vivenciar durante uma semana inteira. Ano passado participei de exposições fotográficas e de quadros, palestras com fotógrafo e professor de híndi, apresentações de dança e de agências de turismo, passeio por lojas e templos que a comunidade indiana frequenta por aqui. Por essa época, num dos momentos em que estive procurando alguma informação pela rede, descobri que meus comentários tinham recebido uma resposta. Fui empolgado checar, crente que encontraria uma solução pro mistério das legendas desaparecidas. A pessoa tinha mandado dois comentários que se resumiam a “não tem legenda, aceita que dói menos”. Achei desnecessário e foi útil. Por uns cinco minutos. Li outros comentários e, entre eles, o de alguém que sugeria que no aplicativo da Sony as legendas apareciam normalmente. Baixei o aplicativo, testei, nada. Pensei que talvez no canal, no site. Achei, era pago, paguei um mês de teste, nada. Na verdade, não nada: há cinco possibilidades de dublagem, todas de línguas da Índia, eu não conseguia nem ler que língua que era com o alfabeto “local” – inglês, que era bom, nada. E esse foi o segundo capítulo desta minha telenovela.

Fui vendo os episódios mesmo sem legenda, agora pelo canal da Sony nanétchi. Alguns episódios passavam sem maiores dramas, outros com um pouco mais, como o de depois do nascimento de Ganexa, quando as deusas todas vão ao palácio em que mora Párvati e, na minha compreensão, oferecem dons ao menino em coisas que dizem. E eu não sabia nada do que estavam oferecendo, porque falavam, falavam, falavam, e eu não entendia nada. Comentei com um amigo que curte ioga e tals sobre o seriado-telenovela e o meu drama, ele se interessou e pensou que talvez conseguisse achar alguma coisa em canais que não me estavam acessíveis. Quando fui atrás do link do primeiro episódio para ele, acabei vendo o episódio em que estava (o oitavo, nono, por aí) de novo pelo YouTube. E tinha legendas. Felicidade geral na nação. Continuei por lá, o seguinte também tinha legenda. Felicidade e soberba na nação. No seguinte do seguinte, nada de legenda.

Eu me esqueci de comentar que era um domingo. Um amigo meu daqui diz que domingo é o dia em que a gente encomenda coisas que não deve, bebe sem barreiras e come tudo que a dieta proíbe, porque é tempo demais nas mãos pra gente não acabar se corrompendo no ócio. Na família de que venho, evangélica ortodoxa (se é que isso existe), diz-se que “mente desocupada é oficina do diabo”. Pois algum asura atacou de fato e mexeu com meu brio. Aí pela meia-noite, me começa um episódio meio chave, já nem lembro qual era o momento da narrativa, e as legendas desaparecem de novo. A raiva tomou conta do meu ser, e a indignação soprou no meu ouvido que era um absurdo eu falar cinco línguas e não poder ver uma série, porque não entendi o que os atores diziam. Aí eu disse: vou aprender híndi. E esse foi o primeiro capítulo de uma nova telenovela.