sexta-feira, setembro 04, 2026

A poética de Deus em Grande Sertão: Veredas

Uma das leituras mais difíceis que fiz na virada de 2025 pra 2026 foi a do Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa. A narrativa lenta e o excesso de detalhes em um discurso arrastado e cheio de volteiso e meandro me impediram de encontrar um ritmo de leitura, e eu acabei levando quase três meses para concluir o livro. Uma experiÇencia necessária, mas extremamente cansativa. Dele mesmo, que me lembre, só havia lido um livro de contos na época da e para a faculdade... Agora me falta ler a tese que me reconvidou à leitura do clássico, Ensaísmo visual daibertiano : o olhar múltiplo sobre Grande Sertão : Veredas, de Guimarães Rosa de Wanessa Loyo. Será certamente outra aventura e me trará saudades dos meus tempos de Juiz de Fora e das visitas aos originais de Daibert.

No começo da leitura, aí antes da página 100 das 552 que compunham a minha edição (a de bolso da Companhia das Letras, que deixa bem a desejar em atualização ortográfica, diga-se de passagem), destaquei três trechos em que GR se refere a Deus e a religião, pela poesia e pelo encanto que me causaram.

 

p. 20

“Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que é a salvação-da-alma... Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco a ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio... Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue. Rezo cristão, católico, embrenho a certo; e aceito as preces de compadre meu Quelemém, doutrina dele, de Cardeque. Mas, quando posso, vou no Mindubim, onde um Matias é crente, metodista: a gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia, e ora, cantando hinos belos deles. Tudo me quieta, me suspende. Qualquer sombrinha me refresca. Mas é só muito provisório. Eu queria rezar — o tempo todo.”

 

p. 26-27

“o diabo, é às brutas; mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro — dá gosto! A força dele, quando quer — moço! — me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho — assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza.”

 

p. 59

“Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar — é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dor. E a vida do homem está presa encantoada — erra rumo [...]”

quinta-feira, junho 25, 2026


Não é a primeira (e provavelmente não terá sido a última) vez que me assalta o pensamento (blasfêmico) de que é muito difícil não acreditar em reencarnação e nos seus corolários. No auge do conhecimentio de que essa teoria não entra nos meus confessados valores e crenças, há certos acontecimentos que vão tomando uma forma e um espaço na minha vida, e, na busca meio desesperada por uma explicação que faça sentido, a ideia de uma reencarnação que traz consigo gostos e dores de uma vida já vivida e não de todo esquecida não tem como deixar de fazer o sentido que realmente faz.

 

.

Na espécie de pós-graduação que venho fazendo sobre religiões do mundo, acabo de completar o módulo do budismo, no qual houve uma insistência sobre  a ideia de que o divino entra em nossas vidas pela voz do outro e uma nossa necessária abertura para o acaso. É na voz de alguém que passa cantando uma linha que se encrava em looping no cérebro de quem a ouviu, é num tolle! lege! de crianças brincando à distância dos nossos ouvidos desatentos mais cheios de atenção que o divino opera.

 

Há aqui em Hamburgo dois cinemas que costumam ter filmes indianos no programa. Um deles, cujo site passei a frequentar com uma assiduidade mais ou menos mensal, fazia já um tempo que só me oferecia filmes de ação ou comédia que me interessavam pouco ou nada. Faz duas semanas, no entanto, brotou lá um drama com cara de Bollywood que me chamou minimamente a atenção. Como os horários são sempre bem ruins (domingo às dez da manhã, por exemplo), eu meio que desencanei da possibilidade. Mas só meio. Acabei redescobrindo uma coisa que já tinha sabido num momento e que se me havia escapado: há um terceiro cinema que, às vezes, apresenta os mesmos filmes que esse em que estava agora o tal drama bollywoodiano. Pra fazer de uma longa história curta, reestruturei todo um planejamento escrupulosamente feito pra um domingo de folga cheio de programas culturais para poder ir ver o filme. No domingo de manhã.

 

Pouco pude completar do programa depois, porque chorei uma boa metade do filme (imagine e tenha em conta que o filme tem quase três horas de duração), que me tocou profundamente. É um bom filme, é um belo filme, me entenda bem, mas não sei se era pra tanto. Não sei que outra explicação dar pra essa identificação que acontece com frequência quando entro em contato com a cultura indiana. Não sei que explicação... a não ser a blasfêmica.

 

..

O cineminha meu amigo resolveu reapresentar o filme ontem, quarta-feira, num horário ainda mais impróprio. Só chegay à minha cama às três e meia da manhã, pra me levantar de novo às seis e coacompanhar uma excursão de uma turma bastante agitada a Berlim.

 

O esforço pra rever o filme foi tão inconsequente como foi obstinada a busca, que me tomou hoje não menos que uma boa hora e meia do dia, para ver se encontrava uma outra sessão possível. Um dos momentos mais memoráveis dessa busca foi aquele em que pensei fazer uma viagem de três horas a Berlim para rever o filme, rever o filme de três horas, passar quatro horas esperando a próxima possibilidade de retorno a Hamburgo, passar três horas viajando pra cá de volta, chegar à rodoviária central de Hamburgo no horário contado pra ir direto pro trabalho, um outro dia de excursão. Para ser bem sincero, acho que a única coisa que me trouxe de volta à razão e me fez desistir dessa tão boa ideia foi ter visto na minha agendinha de papel que o dia dessa viagem para Berlim (já todo planejada na minha cabeça) é o de um xou de dança clássica indiana (pasmam-se todos...) para o qual tenho o ingresso reservado há um tempo.

 

No torvelino de hoje também me voltou uma citação de alguma pedagoga sobre o hábito que as crianças têm de insistir para que se lhes leia um mesmo texto muitas repetidas vezes. A sua explicação era de que a criança encontrou ali alguma questão que ela está trabalhando, e reouvir a narrativa é uma ajuda para processar o tema, elaborar uma resposta, compreender o mundo. Há pouco tempo cismei com Heated rivalry, sobretudo com o terceiro episódio, e, tirando esses dois, só me lembro de mais um filme que, já em idade adulta, me tenha feito sentir essa necessidade infantil da repetição da narrativa.    

 

...

Ao longo da semana que passou entre a primeira e a segunda vez que vi o filme, ele parece ter-se tornado um sucesso de bilheteria na Índia. Com isso, começaram a pulular postagens várias com lindos e torpes edits do filme no meu instagrã, muitos dos quais foram me abrindo a compreensão para detalhes. O filme é muito rico deles. A maior parte desses edits se fez com a que julgay a música-tema mais linda da trilha, Tere Paas Main (algo como “eu estou ao seu lado”), de que compreendia nada além do que pude ler na legenda durante as minhas duas visitas ao cinema. Daí encontrei um texto com uma interpretação lindíssima da música que é, na verdade, dupla: numa versão mais longa, a voz femina canta a sua interpretação da ausência do amado, equanto uma mais curta, não a favorita dos edits, apresenta a visão masculina da ausência da amada.

 

É isso. São três da manhã, e eu estou aqui, terminando de digitar esse texto, sem saber muito o que fazer com tudo isso, mas sem sono — depois de um dia intensivo e extenuante de trabalho que se seguiu a uma noite de apenas duas horas e meia de sono.

 

Ah, sim, quase esqueço: O filme se chama Main Vaapas Aaunga (algo como “eu voltarei”).


terça-feira, fevereiro 24, 2026

 

Leituras de 2025

 

 

1) 14/1 – Verena Göttsching und Stefano Marino, Interpretieren im Lateinunterricht – Ein Handbuch

 

A grande leitura de coroamento da minha qualificação de adaptação. Dos diversos sentimentos e raivas que passei ao longo daquele ano e meio, que se encerrou de fato com o final do contrato de trabalho no dia 31/1/2025, esteve a raiva do não poder aprender. Ou pelo menos essa era a sensação a cada vez que se mencionava algo que suscitava meu interesse, sem que eu pudesse perseguir o tema – por falta de tempo (já que tanto dele era comido pela tal qualificação) ou por falta de energia (já que 99% dela era devorada pela tal qualificação). Das fases ou passos que se seguem como metodologia para o ensino de Latim aqui no Zale, o único que me pareceu realmente novo e muito interessante foi o da interpretação. O bacana desse livro é que ele trabalha a interpretação de diversas perspectivas e ainda se dá o tempo de fazer algumas observações mais gerais que me ajudaram muito a compreender o conceito por trás da prática.

 

 

2) 15/1 – Adolfo Bioy Casares, Historias de amor

 

Este senhor teve duas chances. A primeira foi com um romance chamado La invención de Morel, que foi leitura em um dos meus cursos de espanhol, acho que B1 ou B2. Acredito que uma terceira não haverá.

 

 

3) 28/2 – Ismail Kaplan, Das Alevitentum – Eine Glaubens- und Lebensgemeinschaft in Deutschaland – trechos

 

Li dois curtos trechos deste livro: Richtziele alevitischer Erziehung (p. 87-91) e Alevitentum als Religionsunterricht in den Schulen (p. 92-100). Tomei conhecimento do livro depois de uma formação, junto à Secretaria de Educação, sobre o Alevi (assim traduziram o nome da religião no título do livro de Remzi Kaptan, Doutrina Alevi, facilmente encontrável em pdf pela internet). Como ele estava disponível na biblioteca central da universidade, resolvi ler esses dois capítulos como aprofundamento do que as seis horas de formação me haviam oferecido. Duas impressões positivas: da própria religião, com seus conceitos de paz e igualdade, postos em prática no cotidiano da comunidade alevita e de novo do Zale, que se esforçou para inserir a religião no programa da disciplina escolar de Religião – a ponto mesmo de contratar professores “importados” da Turquia para ministrarem as aulas em turco. Esse episódio não deu nada certo: as aulas eram, àquela época, confessionais, ainda que nas escolas, e os professores trazidos catequizavam os alunos com a doutrina do Islã em vez de lhes ensinarem conteúdos alevitas. Ou assim se descreve a situação no livro. 

 

 

4) 2/3 – Boualem Sansal, Abraham ou La cinquième Alliance

 

Um encontro muito fortuito: encontrei esse título de um autor que me era desconhecido no meio de centenas de livros empilhados e encaixotados num mercadinho dum pátio de igreja em Nantes. Uma leitura fascinante, com trechos luminosos, que parte da “gesta de Abraão” na Bíblia. Concluo esta leitura enquanto o autor faz uma guerra de fome e se permite morrer por inanição, tendo sido preso por algo como dissidência ideológica na Argélia.

 

 

5) 8/3 – Mark Russell, Richard Pace, Leonard Kirk and Andy Troy, Second Coming

 

Acabo de ler os três volumes de Second Coming, o segundo deles na tradução em espanhol por causa de falta de atenção quando da encomenda. O divertido e novo do primeiro volume se diluíram muito já no segundo, e o terceiro, com o seu fim aberto, sugerindo um quarto volume, me desanimou bastante. Uma leitura que comecei com fome de graphic novel acabou se tornando gibi... não creio que vá ler o quarto ou os próximos volumes que venham a ser criados.

 

 

6) 5/4 – Jona – Vorbild der Auferstehung in Günter Lange, Kunst zur Bibel – 32 Bildinterpretationen

 

Dez páginas (96-106) de um estudo interessante de fontes, representações e possíveis leituras de fé para uma página de ilustrações (miniaturas) da Biblia pauperum.  

 

 

7) 29/4 – George Saunders, Liberation Day – Stories

 

 

8) 24/5 – God save the queer – Catéchisme féministe, Michela Murgia (traduit de l’italien par Raphaelle Claudios)

 

Um livro tocante, com ideias frutíferas que demoram um pouco para começar a florescer, mas que encantam à medida em que vão se aprofundando. A autora parte da experiência pessoal de individuação na sua própria fé cristã católica e narra como seus questionamentos foram se tornando uma interpretação muito própria (e bela!) da sua religião. De especial encanto são os capítulos da sequência que se inicia com Une autre Trinité est possible: pela apresentação de um seu episódio de “crise de Stendhal”, Michela passa a uma leitura muito especial do ícone da Santa Trindade do  russo Andrei Rublev. Duas joias preciosas. Na minha tradução, essa interpretação vai da página 117 até  o capítulo que se encerra – ou pelo menos o que achei interessante na leitura – na página 175. Outro trecho formidável (além do que já transcrevi em outra postagem) é o capítulo Le Messie queer, que, na minha tradução, vai da página 177 à 187, uma leitura tocante do texto de João 10, 7-10 e 24, em que Jesus se apresenta como a porta para as ovelhas.

 

 

9) 10/6 – Weltreligionen: Hinduismus, Werner Trutwin

 

Na verdade, um livro didático feito pra Oberstufe (algo como o ensino médio, mutatis multis mutandis). Um trabalho muito sério, de pesquisa muito rica, com uma organização didática do conteúdo como nunca vi em nenhum dos livros introdutórios ao tema a que tive acesso até hoje. Desde que o descobri e comecei o meu curso de hinduísmo online (Hindu Academy, a plataforma do também muito didático Jay Lakhani), escolhi esse título para ser meu “manual de acompanhamento”. O curso ainda está em andamento, com as suas cento e tantas lições, de uma profundidade e uma beleza que eu não chego a conseguir descrever, mas o livro eu concluí.  

 

 

10) 19/7 – Aru Shah and the end of time – The graphic novel, Roshani Chokshi, Joe Caramagna, and Anu Chouhan

 

Eu vinha paquerando os títulos da coleção havia já muito tempo, mas sempre me desanimava por causa dessa onda que virou os livros de fantasia infantojuvenil terem tantas muitas demasiadas páginas. Daí vi que saiu a graphic novel do primeiro volume da coleção e me empolguei pra ler. Foi muit bom, porque vi que é bem lindo, mas não corresponde às minhas expectativas — é realmente pensado para adolescentes, com muita aventura e sequências muito agitadas que se encaixam umas nas outras... socorro.



11) 10/8 – Mathieu Palain, Ne t’arrête pas de courir

 

Quando fui a Nantes, no final de outubro de 2024, muita coisa foi especial. A começar por ter sido meu retorno à França depois de um indesejado intervalo de dez ou onze anos, mas também porque me revi inserido em vinte quatro horas de francês e, em consequência disso, no meu amor por essa língua que me custou tanto esforço. Talvez tenha sido nessa viagem também que o meu até então sob controle consumismo se libertou das amarras. Pelo tanto de bibliotecas ótimas que tenho aqui na Alemanha, poucos são os títulos que realmente preciso comprar – coisas muto específicas, como um livro de poemas de uma indiana que escreve em inglês e produziu um livro que parte de Kamadev como mote, etc. Mas ver títulos em vitrines de livrarias em Nantes e não os comprar foi quase impossível. Voltei de lá com cinco títulos na mochila, e este foi um deles. Um romance interessante, com trechos muito poéticos e retratos de masculinidades ricas, foi uma leitura fluida e leve.

 

12) 12/8 – Tomi Ungerer, Émile e Der Nebelmann

 

Dois livrinhos infantis lindíssimos, ambos lidos no próprio Museu Tomi Ungerer, em Strasbourg, minha terceira viagem à França depois da “retomada”. Também essa me rendeu cinco volumes nas malas do retorno, Émile sendo um deles, o qual pretendo usar como material didático nos meus cursos de francês e de Religião.

 

13) 24/8 – Thierry Robin, Jésus aux enfers – Trois jours de la vie du Christ dont les Évangiles ne disent rien

 

A cada ano que passa, cresce o meu encanto por cristãos pensantes, capazes não só de viver sua fé com intensidade, mas também de ver a beleza dos seus símbolos sem noções prévias acachapantes. A ideia dessa BD surge com a leitura do Evangelho de Nicodemos, um dos apócrifos que não se encontram na Bíblia canônica. Meu espanto se multiplica com a “poética” que as notas do autor oferecem, onde aprendi muito e fiquei feliz mesmo de ter me permitido a pequena crise de consumismo de Strasbourg, onde encontrei esse tesouro numa livraria de BDs. De quebra, ainda descobri um programa de TV francês de entrevistas com teólogas – disponível nanétchi (“La Foi prise au mot”) e o artista holandês Joakim Skovgaard, por causa do qual penso se devo ter outra crise (e comprar um volume de suas ilustrações para a Bíblia) ou se fico de boas.   

 

14) 27/8 – Sibylle Janert, André Zirnsak, Ilaria Acerbi und Stephanie Hohndorf, Autismus beziehungsorientiert behandeln – Handbuch zur DIRFloortime-Methode

 

Quando chegou à escola, em 2024, um anúncio de uma qualificação sobre autismo, fui um dos primeiros a responder ao email, mostrando meu desejo de participar. Meu interesse pelo tema, naquele momento, podia se resumir em dois fatores: minha recém-saída, muito a contragosto, do emprego em que trabalhava com crianças de cinco, seis anos e onde essas questões pareciam mais relevantes e cotidianas; um esforço de garantir, por meio da autorização da minha participação pela diretoria da escola, a minha permanência no emprego em que estava – a qualificação só se iniciaria depois de o meu contrato ter terminado, e a autorização como que pressupunha uma renovação. De mais distante, esse interesse tinha apenas duas experiências anteriores de que eu possa me lembrar. A primeira delas, meu único contato emocional com o espectro, um filme chamado Adam, cuja personagem protagonista tem síndrome de Asperger. Esse filme manteve, aliás, por muitos anos, o título de “meu filme favorito”. A segunda foi uma experiência falhada, que quase aconteceu: eu teria sido o professor de Latim de um adolescente no espectro, cuja escolarização se fazia predominantemente em casa e o qual estava se preparando para o Abitur (como digo sempre e comparando muito mal, o Enem aqui do Zale).   

A qualificação foi bastante interessante, com algumas das sessões de dia inteiro, o que eu sempre acho uma tortura. Nesse caso bem tolerável, porque havia cinco outros colegas da minha escola inscritos, e os horários de almoço com eles foram sempre muito divertidos e produtivos. Nessa vibe foi que busquei o livro, cujo foco de atenção me parecia propor uma perspectiva bem distinta das que via por todo o lado: o relacionamento. Uma questão, aliás, muito minha nos últimos anos. A leitura é leve e a teoria (de uma prática metódica) muito empregável e, ao que parece, muito eficiente.

 

15) 14/9 – Lima Barreto, O triste fim de Policarpo Quaresma

 

Hoje (14/9/2025) foi a primeira vez que pude participar de um clube de leitura iniciado por um grupo de brasileiros aqui em Hamburgo. A primeira reunião deles tinha acontecido durante minha viagem de férias à França em agosto, perdi a discussão do Torto arado. A do Lima Barreto foi bacana, com uma participação quase homogênea de todo o grupo, em que estavam hoje, no Planten und Blomen, nove pessoas presentes. O livro não agradou à grande maioria, e foi interessante ver como cada um leu trechos, personagens, contextos e temas de forma diferente. Feliz de ter participado, pela primeira vez na vida, de um círculo de leitura brasileiro com leitura de texto brasileiro. O próximo título é A hora da estrela. Já o consegui emprestado na biblioteca central da universidade. Vamos ver se dou conta de ler a Clarice – autora que, até hoje, nunca me interessou. Atualização de 24/2/2026: Consegui nada. As dez primeiras páginas do romance, ou seja, mais que 10%, me levaram a certificar aquilo que sempre tinha achado: não dá pra mim. E continuo sem entender o que as pessoas veem na autora, sinceramente. 

 

16) 14/12 – Ernest Hemingway, The Old Man and the Sea

 

 

17) 24/12 – Christian Kuster, Männer Advent – ein spiritueller Begleiter

 

 

18) 31/12 – Saša Stanišić, Möchte die Witwe angesprochen werden, platziert sie auf dem Grab die Gießkanne mit dem Ausguss nach vorne




domingo, fevereiro 15, 2026


Quando nevou não mais que o suficiente para cobrir as folhas secas de branco, os passos soam como celofane amassado. 

domingo, dezembro 14, 2025

 Ernest Hemingway, The Old Man and the Sea


It is silly not to hope, he thought. Besides I believe it is a sin. Do not think about sin, he thought. There are enough problems now without sin. Also I have no understanding of it.

I have no understanding of it and I am not sure that I believe in it. Perhaps it was a sin to kill a fish. I suppose it was even though I did to keep me alive and feed many people. But then everything is a sin. It is much too late for that and there are people who are paid to do it. Let them think about it. You were born to be a fisherman as the fish was born to be a fish. San Pedro was a fisherman as was the father of the great DiMaggio.

But he liked to think about all things that he was involved in and since there was nothing to read and he did not have a radio, he thought much and he kept on thinking about sin. You did not kill the fish only to keep alive and to sell for food, he thought. You killed him for pride and because you are a fisherman. You loved him when he was alive and you loved him after. If you love him, it is not a sin to kill him. Or is it more?

'You think too much, old man,' he said aloud.  


sábado, maio 24, 2025


L'une des scènes emblématiques de l'Évangile où il apparaît clairement que la facilité n'est pas la caractéristique première de la foi se trouve dans les pages où l'évangeliste Marc rapporte le dialogue entre Jésus et les apôtres aux abords de Césarée (Mt 16, 13-16). Interrogés sur les rumeurs qui circulent à propos de leur Maître, qui leur demande: « Qui suis-je, d'après les hommes, Moi, le Fils de l'homme ? », les disciples rapportent à Jésus les opinions de la rue, souvent très fantaisistes, comme celles qui le désignent comme le prophète Élie ou Jean le Baptiste revenu à la vie. Ce serait l'occasion pour Jésus de se révéler, au moins à ses amis, avec une déclaration explicite, mais il préfère leur retourner la question : « Et vous, que dites-vous ? Pour vous, qui suis-je ? » [...] Jésus, qui, dans cet extrait, semble dire aux croyant.es de tous les temps que ce n'est pas l'étiquette qui compte, mais la relation personnelle, qui est beaucoup plus importante. C'est à partir de cette réponse que la foi se détermine comme une expérience vitale, car chacun.e d'entre nous croira seulement en un Christ ressenti comme le sien, celui dont il ou elle a reconnu le visage comme vrai à ses yeux. Même dans sons absolu divin, Jésus veut rester lié aux vies de chacun.e et, au nom de cette relation, il continue à nous demander de dire, nous, qui il est, indépendamment des mots des autres. 

Michela Murgia, God save the queer - Catéchisme féministe
traduit de l'italien par Raphaelle Claudios,  p. 191-192   

sexta-feira, fevereiro 28, 2025

 

Lista de 2024


1) 21/1 – Geoff Ryman, Him


2) 13/2 – Bernard Mathieu, La littérature de l’Égypte ancienne II – Moyen Empire et deuxième période intermédiaire, p. 143-198 : Hymnes.

Descobrindo a mitologia egípcia bem aos poucos, em primeiro contato – por incrível que possa parecer.

 

3) 18/2 – Madeline Miller, Heracles’ Bow (short story)

 

4) 22/3 – Anton Chekhov, Uncle Vanya (na tradução de Elisaveta Fen)

 

5) 24/3 – James N. Loehlin, The Cambridge Introduction to Chekhov – somente algumas páginas: Uncle Vanya (pp. 124-135), The Soviet Era (pp. 167-170) e The birth of a modern theatre (pp. 30-33).

 

6) 19/4 – Sinan Antoon, Postcards from the Underworld – que poemas tocantes! Fruto de reflexões religiosas, amorosas e da dor da guerra, imagens densas e metáforas pesadas são marcas sobretudo dos meus favoritos na coleção: Psalm, The New God, From Eve’s Confessions, The Saz Player, In My Next Life, Another Day, Dismemberment, Heard on New Year’s Eve, A Butterfly in New York, Angels on My Ceiling, Wars, A Prisoner’s Song, To an Iraqi Infant, Delving, Sifting, Wrinkles on the Wind’s Forehead, Strings, A Sign, and Absence.

 

7) 19/4 – Werner Bartens, Lob der langen Liebe – Wie sie gelingt und warum sie unersetzbar ist

 

8) 12/7 – Kevin Conroy, Finding Batman

9) 14/7 – Ludwig Rendle, Stille-Übungen als Rituale zum Stundenbeginn

Este é um dos dois (o número seguinte é o outro) artigos curtinhos que li, com sugestões bem interessantes para a aula de Religião, mas que eu mesmo empreguei no projeto das mitologias brasileiras. Ele se encontra no livro de mesmo autor intitulado Ganzheitliche Methoden im Religionsunterrich (“Métodos holísticos na aula de Religião”). Aqui especificamente trata-se das vantagens que o hábito criado de começar  a aula com um exercício meditativo em que as crianças encontram o silêncio como uma “viagem para seu interior”, “trilhas para a transformação pessoal” e “caminhos de aprendizagem espiritual”. Dois títulos no fim do texto ainda devem me fornecer um aprofundamento mais tarde: Schüler brauchen Rituale (“Crianças precisam de rituais”) de Gertrud Kaufmann-Huber e Stille-Übungen mit Kindern (“Exercícios de silêncio com crianças”) de Gerda e Rüdiger Maschwitz.

10) 15/7 – Heidrun Dierk et alii, Grundfähigkeiten entwickeln

O segundo texto, antes um excerto que um artigo, se compõe das quinze páginas finais do livro Das Kursbuch Religion 3. Nele se analisam as competências (uma palavra-chave dos planos curriculares aqui de Hamburgo) que os alunos devem desenvolver em relação à fé cristã e também a outras fés e perspectivas. O livro é rica e lindamente ilustrado e, como em geral acontece aqui no Zale, a qualidade do material, em princípio para os nono e décimo anos, me choca. O excerto em si se divide em cinco partes (Wahrnehmen, Deuten, Urteilen, Miteinander sprechen, Anwenden und Gestalten – mais ou menos: perceber, interpretar, julgar [=valorar], falar com o outro, aplicar e projetar [=conceber]), nas quais se explica aos alunos essa sequência de procedimentos, os quais devem levá-los a uma melhor compreensão e capacidade de utilização dos conceitos todos vistos no livro. Cada seção conta com uma explicação e diversos exercícios que levam os alunos de volta a textos e imagens espalhados pelo livro, o que faz com que essas páginas finais possam funcionar como um resumão/exercício de retomada do conteúdo. 

11) 17/7 – Alawiya Sobh, This thing called love (translated by Max Weiss)

12) 18/7 – Philip Wilkinson, Mythen & Sagen aus allen Kulturkreisen (übersetzt von Angelika Feilhauer und Elisabeth Reschat), S. 248-275 (Westafrika, Zentralafrika, Ostafrika, Südafrika)

Um livrão fantástico, com a mesma cara dos da coleção The ... Book – big ideas simply explained, a qual tinha recebido traduções constantes em português quando saí do Brasil. Não me parece que seja diferente na Alemanha, onde consegui os de Mitologia, religião e black history sem problemas nas bibliotecas circulantes de bairro – tudo para a já famosa semana de projeto de fim de ano no ginásio. Das quase trinta páginas que li, todas sobre mitologias africanas (exclusa somente a do antigo Egito), como busca para o tema do projeto, antes de me decidir reduzir à iorubá, impressionaram-me a seleção das imagens e dos textos. Para o que se propõe, “grandes ideias explicadas com simplicidade”, achei o apanhado bem rico e de leitura fácil e leve. Foi encantador poder me fascinar com o mito de criação da terra e da sua sustentação segundo os Fon em Dahomé (p. 250 e 251) e com o do aparecimento do homem a partir de uma picada de abelha na mitologia dos San (p. 272). No meio dos textos, também se inserem umas páginas pretas, em que um tema ou figura é explorado paralelamente em diversas tradições. Entre as páginas que li, houve duas dessas inserções: p. 254-255, em que se trata de heróis míticos, e p. 268-269, cujo tema são os xamãs – com as últimas revisitei memórias da deliciosa sequência de palestras “Música e religião” de que participei entre janeiro e fevereiro e aumentei minha vontade de ler Der Gesang des Eises – wie ich zur Schamanin wurde de Annabelle Wimmer Bakic, um livro que se soslaiou no meu caminho ontem, pela segunda vez, na minha livrariazinha esotérica favorita aqui de Hamburgo. Outro livro que esta leitura me deixou com vontade de ler é The Mwindo Epic from the Banyanga (Congo Republic) de Daniel Biebuyck e Kahombo C. Mateene. A vida é curta demais pra tudo que eu quero ler...  

 

12) 19/7 – Das Mythologie Buch (übersetzt von Karin Hofmann und Anke Wellner-Kempf), S. 284-297: Der Schöpfungsmythos der San; En-Kai und die Tiere; Anansi, die Spinne; Der Kosmos der Dogon; Eshu, der Trickster.

 

13) 20/7 – Fabien Nury (Szenario), Brüno (Zeichnungen) und Laurence Croix (Farben), Atar Gull oder das Schicksal eines vorbildlichen Sklaven (übersetzt von Volker Zimmermann aus dem Französischen)

 

14) 20/7 – Das Religionen Buch (übersetzt von Kirsten Lehmann und Edigna Hackelsberger), S. 26-39: Besondere Menschen können in andere Welten reisen – Die Macht der Schamanen (Samen); Warum sind wir hier? Erschaffen für einen Zweck (Baiga); Warum sterben wir? Die Ursprung des Todes (Maori); Die Ewigkeit ist jetzt – Die Traumzeit (australische Aborigines); Unsere Ahnen führen uns – Die Geister der Toten Leben weiter (Quechua); Wir sollen gut sein – In Harmonie leben (Chewong); Alles hängt zusammen – Ein lebenslanges Bündnis mit den Göttern (Warao). S. 114-115: Durch Rituale sprechen wir zu den Göttern – Andacht durch Puja (Bhakti-Bewegung im Hinduismus).

 

15) 21/7 – Mirjam Zimmermann, Interreligiöses Lernen narrativ – Feste in den Weltreligionen

 

16) 7/8 – Salome Benidze, Die Stadt auf dem Wasser, aus dem Georgischen übersetzt von Iunona Guruli

 

17) 15/8 – Itamar Vieira Júnior, Torto Arado

 

18) 22/8 – Ruth Guimarães, Água funda

 

19) 2/9 – Jeferson Tenório, O avesso da pele

 

20) 7/9 – Nilton Resende, Fantasma

Três frases bem tecidas do livro: “As lembranças como um feixe de varas onde posso me recostar” (p. 58), “O amor é duro e inflexível como o seu avesso” (p. 70) e “Esquecer alguém é como esquecer de apagar a luz do quintal e deixá-la acesa também de dia” (p. 78).

 

21) 7/9 – Phil Kaye, Date & Time

 

22) 23/10 – Mark Waid and Paolo Rivera, Here comes… Daredevil (Vol. 1)

 

23) 2/11 – Frank Miller et David Mazzuchelli, Daredevil – Renaissance (traduction de Nicole Duclos) 

 

24) 28/11 – Fiódor Dostoiévski, Dois sonhos. O sonho do titio e Sonhos de Petersburgo em verso e prosa, tradução de Paulo Bezerra

p. 218, citação dos Sonhos: “Reconheço que o primeiro passo é o mais importante, no entanto o segundo passo tem, talvez, um significado nada inferior. Vez por outra se atribui o sucesso do primeiro passo a circunstâncias casuais, mas o sucesso do segundo passo justifica o negócio de forma definitiva. Demonstra a todo mundo não só a possibilidade mas também a solidez, assim como a maturidade do negócio.”

 

25) 02/12 – Larry Tremblay, Tableau final de l’amour

Je savais que le tableau qui m’obsédait depuis des années s’y trouvait : le portrait du pape Innocent X, peint par Vélasquez. Je considérais ce portrait comme l’un des plus grands jamais réalisés. Vélasquez avait peint si méticuleusement le pape que celui-ci l’avait refusé, le trouvant trop ressemblant. Il n’avait pas supporté – je l’imaginais et je le croyais – d’être confronté à sa condition humaine, ayant espéré retrouver dans l’œuvre du peintre le frémissement de la transcendance, la trace de la grâce, ne serait-ce qu’un pli de la grandeur de sa fonction papale. Il n’avait vu qu’un homme aux traits constipés, noyé dans ces vêtements somptueux d’église. Vélasquez avait saisi de manière magistrale l’humanité de la situation autant que sa bouffonnerie future. Ce tableau me fascinait et m’épouvantait. Je n’arrivais pas à mettre le doigt sur la sensation qu’il provoquait en moi. Il m’attirait, me dégoûtait, m’ébranlait. Aussi, ce jour-là à Rome, suis-je bien entré dans la galerie Doria-Pamphilj. Je me suis approché de la salle où Le Pape Innocent X était accroché, et plus je m’en approchais, plus les battements de mon cœur m’alertaient, ralentissaient mes pas au point que, dans un mouvement de panique, je me suis mis à courir vers la sortie. Je n’ai jamais vu le tableau. J’avais le pressentiment que devant l’œuvre de Vélasquez, j’aurais été aspiré, déchiqueté, dévoré par une force qui s’y terrait, comme une bête guettant sa proie. (p. 84-85)

 

26) 12/12 – Ulrich Müller, Heimat finden – Impulse aus dem Buch Rut

Kurzer Infoblock für alle Stadtkinder: Eine Tenne ist ein freier Platz außerhalb einer Siedlung, wo der Wind ungehinderter weht. Auf dieser Tenne wird geworfelt. Zuerst wird das Getreide gedroschen, die Körner werden aus der Spreu, also aus der Hülse, herausgeschlagen. Körner und Spreu sind dann aber immer noch vermischt. Also wird anschließend das gedroschene Getreide mit Gabeln und Schaufeln in die Höhe geworfen – der Wind verweht die leichte Spreu (vgl. Jeremia 4,11). Die schweren Getreidekörner, um die es eigentlich geht, fallen zu Boden und können zum Schluss eingesammelt werden.

Wenn abends und nachts vom Meer her Westwind kommt, herrschen ideale Bedingungen zum Worfeln. Die Männer arbeiteten deswegen damals häufig am Abend, wenn der Wind in passender Stärke über das Land wehte, und schliefen anschließend auf der Tenne, um auf die Ernte aufzupassen.  (S. 89-90)

 

27) 20/12 – E. A. Bremicker, Auf dem Feld des Boas – Praktische Denkanstoße zu Ruth 2




terça-feira, outubro 29, 2024

 

Roller Coaster


Michael tells me

dating is like a roller coaster

fun – but a lotta ups and downs

 

*

 

while at dinner

the glowing thing in my pocket

coyly whirs against my thigh

and a person I have met once

now thousands of miles away

has sent me parts of her body

we used to whisper about at sleepovers

 

*

 

Dan tells me about his wife

uses words like happiness

without caveat

or attached guru

 

but still cannot help asking about

what it must be like

to discover a whole body

to gently approach the shore

of a willing continent

that does not ask to build a shelter

 

*

 

I wake up next to a body

we chant words

that sound mostly like

I am not lonely now

 

now clothed

she says plainly

I have some other errands to run

& I think on the small cruelty of the word other

 

*

 

my family & I visit Disneyland

I ride the coaster

I was too young for as a child

 

I think less

about the brightly colored cars

charging up toward the sky

& racing down toward the ground

 

more than audible thrill

as we come

quickly around some corner

we cannot see past

 

but even more, the muted shuffling

as we exit

remembering to not leave

anything important behind

 

the quiet

as we turn our back

wondering where to go next

 

I think I am ready to go home

my sister says

 

I nod

 

 

Phil Kaye in Date & Time