domingo, abril 09, 2023

 

Lista de 2022

 

1) 1º. de janeiro – Margaret Atwood, três contos: Happy endings, Time capsule found on the dead planet, and Torching the Dusties (este último na tradução em alemão de Monika Baark, Fackelt die Alten ab).

Estas foram leituras de um círculo que discute textos que tenham fundo/valor político, parte da programação de uma ONG (?) chamada A nova sociedade, que eu descobri por meio da minha última psicóloga, a daqui, pra que não pudesse sair de um semestre e poucos de terapia dizendo que não serviu para absolutamente nada.

 

2) 22/1 – Jocelyne Saucier, Les héritiers de la mine

Essa foi a primeira leitura do projeto do ano passado: literatura francófona. Meio que sabendo da concreta possibilidade de voltar a ensinar francês, resolvi me reaproximar da língua pela literatura – mas não queria saber de França.

 

3) 2/2 – Micheliny Verunschk, O som do rugido da onça

Um romance interessante, com uma proposta bacana e admirável pesquisa de preparação. Gostei muito da leitura, um presente da sempre WL.

 

4) 29/3 – Cícero, Sobre a adivinhação (trad. Beatris Ribeiro Gratti)

 

5) 2/4 – Edem Awumey, Mina parmi les ombres

 

6) 29/4 – Chitra Banerjee Divakaruni, Before we visit the Goddess

 

7) 24/5 – Statius, Achilleid (trad. J. H. Mozley)

 

8) 26/5 – Catherine Leroux, La Marche en forêt

Esta autora, como o de 5), eu descobri graças a uma série documental (do delicioso arte) a respeito de autores canadenses contemporâneos. O livro, não diferentemente do de 2), é um drama de família. Este é construído em fragmentos, com personagens que se delineiam muito aos poucos e sem contornos muitos pesados, uma configuração interessante que se lê com a árvore genealógica que abre o romance.

9) 13/8 – Hanns-Josef Ortheil, Hecke

10) 11/9 – Ken Bugul, Riwan ou le chemin de sable

11) 25/10 – Stefan Heym, Woher soll ein Mensch wissen

12) 6/11 – Jurek Becker, Jakob der Lügner

13) 26/12 – Anselm Grün, Dein Licht schenkt uns Hoffnung – 24 Rituale für den Advent

sábado, março 11, 2023

[sai de cena]

 

Uma coisa muito útil que aprendi nos últimos tempos foi retirar-me. Ao lado da aprendizagem de dar tempo ao tempo, acho que tenho conseguido chegar menos a confrontações — que sempre foram, de minha parte, cheias de violência de toda a sorte — e evitar desgastes emocionais maiores do que os já presenteados pelo cotidiano. 

Hoje eu estava bem tranquilinho, depois de uma noite bem dormida, no primeiro metrô em direção ao emprego da tarde. À tarde eu trabalho como “guardador de crianças” (ou “educador”, se eu quisesse me dar uma tradução pomposa pra uma atividade que tem pouco de soberba em si mesma). Estou há pouco menos que três meses bem feliz na pré-escola, com crianças de cinco a seis anos. Trabalho numa escola muito cosmopolita, descubro a cada dia um país novo no mapa, converso em português, alemão e (no meu pseudo) russo com crianças de toda origem; descubro no meio de roupas, mochilas, calçados e brinquedos caros as mesmas necessidades de atenção, proteção, carinho e limites e regras claras de que todo miúdo precisa. Ainda que hoje seja um dia diferente, pois vou ser retirado da minha zona de conforto da pré-escola e colocado num grupo misto e desordenado (“colônia de férias”), eu estava tranquilinho. 

Daí, logo na minha segunda estação dentro do metrô, entra-me uma senhora e me solta um можно?, porque eu estava com a mochila no assento do lado do meu. Tirando o que eu percebi como russo, nada de estranho na situação. Ela se sentou à minha direita, sua mãe diante de nós dois, ocupando dois bancos; em um dos bancos no conjunto de quatro à nossa direita, pra lá do corredor, sua filha se sentou, claramente no desejo de ficar afastada de mãe e avó. Em seguida, começa uma discussão em tom bastante alto para o que é a normalidade dentro de um metrô por estas bandas. Conhecendo o incômodo que qualquer alteração acústica me causa, já me pus no meu constante estado de autopoliciamento. Aí veio o mais absurdo de toda a situação: com a máscara cobrindo somente a boca, num tom bruto e autoritário, a mãe pergunta à filha onde foi parar a máscara dela. No volume alto, movimento de tampa nariz e destampa nariz e boca que se seguiram, meu incômodo foi só aumentando, exponenciado por notar que a senhora fungava o tempo todo e estava com o nariz bem entupido. 

Eu comecei a observar o outro extremo do compartimento, já que minha reação passivo-agressiva de olhar feio pra senhorinha a cada vez que ela baixava a máscara estava tendo efeito zero. Assim que se desocupou um assento, fui pra bem longe. 

Pra bem longe eu fui também no refeitório da escola em que trabalho à tarde. Há um sistema bem planejado de separarem-se as crianças de cada turma de acordo com o horário em que elas são buscadas a cada dia. Uma mãe errou no horário e resolveu que queria levar o filho embora no horário do almoço, por volta das 13h, quando o menino estava registrado para sair às 14h30. A educadora que estava ali perto explicou (umas três vezes, repetindo-se, como quase sempre é necessário com os pais) que ela poderia levar o menino antes de ele comer ou somente daí a uma hora e meia, no próximo horário de saída. Só que o almoço do dia era bom, e o menino não queria ir sem almoçar. Minha empatia pela situação da mãe, o desejo do menino e a impotência da educadora me fizeram querer tentar resolver o problema. Felizmente, eu me dei conta da minha presunção antes, no mesmo momento em que caiu a evidente ficha de que eu não estava envolvido no imbróglio e só precisava mesmo era sair de perto dos três. 

Como nas situações, também nas relações. Há pelo menos sete anos venho trabalhando nisso: fugir de pessoas que fizeram escolhas de vida muito diferentes da minha, escolhas que me parecem cercadas de ódio e violência, ainda que isso não se perceba no cotidiano da/pela pessoa em questão. A comunicação se dificulta, as duas artes não conseguem se ouvir, eu acabo entrando no meu modo “melhor nem dizer nada” e me afasto. Da mesma forma, respeito quem age de forma parecida. Amigos, queridos, parentes ou conhecidos que se afastam — afastados permanecerão. A interrelação precisa sempre ser uma via de duas mãos; se se desfaz, é possível que seja livramento.