A poética de Deus em Grande Sertão: Veredas
Uma das leituras mais difíceis que fiz na virada de 2025
pra 2026 foi a do Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa. A
narrativa lenta e o excesso de detalhes em um discurso arrastado e cheio de
volteiso e meandro me impediram de encontrar um ritmo de leitura, e eu acabei
levando quase três meses para concluir o livro. Uma experiÇencia necessária,
mas extremamente cansativa. Dele mesmo, que me lembre, só havia lido um livro
de contos na época da e para a faculdade... Agora me falta ler a tese que me
reconvidou à leitura do clássico, Ensaísmo visual daibertiano : o olhar múltiplo
sobre Grande Sertão : Veredas, de Guimarães Rosa de Wanessa Loyo.
Será certamente outra aventura e me trará saudades dos meus tempos de Juiz de
Fora e das visitas aos originais de Daibert.
No começo da leitura, aí antes da página 100 das 552 que compunham a
minha edição (a de bolso da Companhia das Letras, que deixa bem a desejar em atualização ortográfica, diga-se de passagem), destaquei três trechos em que GR se refere a Deus e a religião,
pela poesia e pelo encanto que me causaram.
p. 20
“Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer,
desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que é a salvação-da-alma...
Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco a ocasião de religião. Aproveito de
todas. Bebo água de todo rio... Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue.
Rezo cristão, católico, embrenho a certo; e aceito as preces de compadre meu
Quelemém, doutrina dele, de Cardeque. Mas, quando posso, vou no Mindubim, onde
um Matias é crente, metodista: a gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia, e
ora, cantando hinos belos deles. Tudo me quieta, me suspende. Qualquer
sombrinha me refresca. Mas é só muito provisório. Eu queria rezar — o tempo
todo.”
p. 26-27
“o diabo, é às brutas; mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro
— dá gosto! A força dele, quando quer — moço! — me dá o medo pavor! Deus vem
vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho — assim é o milagre. E Deus
ataca bonito, se divertindo, se economiza.”
p. 59
