Não é a primeira (e provavelmente não terá sido a última) vez que me assalta o pensamento (blasfêmico) de que é muito difícil não acreditar em reencarnação e nos seus corolários. No auge do conhecimentio de que essa teoria não entra nos meus confessados valores e crenças, há certos acontecimentos que vão tomando uma forma e um espaço na minha vida, e, na busca meio desesperada por uma explicação que faça sentido, a ideia de uma reencarnação que traz consigo gostos e dores de uma vida já vivida e não de todo esquecida não tem como deixar de fazer o sentido que realmente faz.
.
Na espécie de pós-graduação que venho
fazendo sobre religiões do mundo, acabo de completar o módulo do budismo, no
qual houve uma insistência sobre a ideia
de que o divino entra em nossas vidas pela voz do outro e uma nossa necessária
abertura para o acaso. É na voz de alguém que passa cantando uma linha que se
encrava em looping no cérebro de quem a ouviu, é num tolle! lege!
de crianças brincando à distância dos nossos ouvidos desatentos mais cheios de
atenção que o divino opera.
Há aqui em Hamburgo dois cinemas que costumam ter filmes
indianos no programa. Um deles, cujo site passei a frequentar com uma
assiduidade mais ou menos mensal, fazia já um tempo que só me oferecia filmes
de ação ou comédia que me interessavam pouco ou nada. Faz duas semanas, no
entanto, brotou lá um drama com cara de Bollywood que me chamou minimamente a
atenção. Como os horários são sempre bem ruins (domingo às dez da manhã, por
exemplo), eu meio que desencanei da possibilidade. Mas só meio. Acabei
redescobrindo uma coisa que já tinha sabido num momento e que se me havia
escapado: há um terceiro cinema que, às vezes, apresenta os mesmos filmes que esse
em que estava agora o tal drama bollywoodiano. Pra fazer de uma longa história
curta, reestruturei todo um planejamento escrupulosamente feito pra um domingo
de folga cheio de programas culturais para poder ir ver o filme. No domingo de
manhã.
Pouco pude completar do programa depois, porque chorei uma
boa metade do filme (imagine e tenha em conta que o filme tem quase três horas de
duração), que me tocou profundamente. É um bom filme, é um belo filme, me
entenda bem, mas não sei se era pra tanto. Não sei que outra explicação dar pra
essa identificação que acontece com frequência quando entro em contato com a
cultura indiana. Não sei que explicação... a não ser a blasfêmica.
..
O cineminha meu amigo resolveu reapresentar o filme ontem,
quarta-feira, num horário ainda mais impróprio. Só chegay à minha cama às três e
meia da manhã, pra me levantar de novo às seis e coacompanhar uma excursão de uma
turma bastante agitada a Berlim.
O esforço pra rever o filme foi tão inconsequente como foi
obstinada a busca, que me tomou hoje não menos que uma boa hora e meia do dia, para
ver se encontrava uma outra sessão possível. Um dos momentos mais memoráveis dessa
busca foi aquele em que pensei fazer uma viagem de três horas a Berlim para
rever o filme, rever o filme de três horas, passar quatro horas esperando a próxima
possibilidade de retorno a Hamburgo, passar três horas viajando pra cá de
volta, chegar à rodoviária central de Hamburgo no horário contado pra ir direto
pro trabalho, um outro dia de excursão. Para ser bem sincero, acho que a única
coisa que me trouxe de volta à razão e me fez desistir dessa tão boa ideia foi
ter visto na minha agendinha de papel que o dia dessa viagem para Berlim (já
todo planejada na minha cabeça) é o de um xou de dança clássica indiana (pasmam
-se todos...) para o qual tenho o ingresso reservado há um tempo.
No torvelino de hoje também me voltou uma citação de alguma
pedagoga sobre o hábito que as crianças têm de insistir para que se lhes leia
um mesmo texto muitas repetidas vezes. A sua explicação era de que a criança
encontrou ali alguma questão que ela está trabalhando, e reouvir a narrativa é
uma ajuda para processar o tema, elaborar uma resposta, compreender o mundo. Há
pouco tempo cismei com Heated rivalry, sobretudo com o terceiro episódio,
e, tirando esses dois, só me lembro de mais um filme que, já em idade adulta,
me tenha feito sentir essa necessidade infantil da repetição da narrativa.
...
Ao longo da semana que passou entre a primeira e a segunda vez
que vi o filme, ele parece ter-se tornado um sucesso de bilheteria na Índia.
Com isso, começaram a pulular postagens várias com lindos e torpes edits
do filme no meu instagrã, muitos dos quais foram me abrindo a compreensão para detalhes.
O filme é muito rico deles. A maior parte desses edits se fez com a que
julgay a música-tema mais linda da trilha, Tere Paas Main (algo como “eu
estou ao seu lado”), de que compreendia nada além do que pude ler na legenda
durante as minhas duas visitas ao cinema. Daí encontrei um texto com uma interpretação lindíssima da música que é, na verdade, dupla: numa versão mais
longa, a voz femina canta a sua interpretação da ausência do amado, equanto uma
mais curta, não a favorita dos edits, apresenta a visão masculina da
ausência da amada.
É isso. São três da manhã, e eu estou aqui, terminando de
digitar esse texto, sem saber muito o que fazer com tudo isso, mas sem sono — depois
de um dia intensivo e extenuante de trabalho que se seguiu a uma noite de
apenas duas horas e meia de noite de sono.
Ah, sim, quase esqueço: O filme se chama Main Vaapas
Aaunga (algo como “eu voltarei”).
