quinta-feira, junho 25, 2026


Não é a primeira (e provavelmente não terá sido a última) vez que me assalta o pensamento (blasfêmico) de que é muito difícil não acreditar em reencarnação e nos seus corolários. No auge do conhecimentio de que essa teoria não entra nos meus confessados valores e crenças, há certos acontecimentos que vão tomando uma forma e um espaço na minha vida, e, na busca meio desesperada por uma explicação que faça sentido, a ideia de uma reencarnação que traz consigo gostos e dores de uma vida já vivida e não de todo esquecida não tem como deixar de fazer o sentido que realmente faz.

 

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Na espécie de pós-graduação que venho fazendo sobre religiões do mundo, acabo de completar o módulo do budismo, no qual houve uma insistência sobre  a ideia de que o divino entra em nossas vidas pela voz do outro e uma nossa necessária abertura para o acaso. É na voz de alguém que passa cantando uma linha que se encrava em looping no cérebro de quem a ouviu, é num tolle! lege! de crianças brincando à distância dos nossos ouvidos desatentos mais cheios de atenção que o divino opera.

 

Há aqui em Hamburgo dois cinemas que costumam ter filmes indianos no programa. Um deles, cujo site passei a frequentar com uma assiduidade mais ou menos mensal, fazia já um tempo que só me oferecia filmes de ação ou comédia que me interessavam pouco ou nada. Faz duas semanas, no entanto, brotou lá um drama com cara de Bollywood que me chamou minimamente a atenção. Como os horários são sempre bem ruins (domingo às dez da manhã, por exemplo), eu meio que desencanei da possibilidade. Mas só meio. Acabei redescobrindo uma coisa que já tinha sabido num momento e que se me havia escapado: há um terceiro cinema que, às vezes, apresenta os mesmos filmes que esse em que estava agora o tal drama bollywoodiano. Pra fazer de uma longa história curta, reestruturei todo um planejamento escrupulosamente feito pra um domingo de folga cheio de programas culturais para poder ir ver o filme. No domingo de manhã.

 

Pouco pude completar do programa depois, porque chorei uma boa metade do filme (imagine e tenha em conta que o filme tem quase três horas de duração), que me tocou profundamente. É um bom filme, é um belo filme, me entenda bem, mas não sei se era pra tanto. Não sei que outra explicação dar pra essa identificação que acontece com frequência quando entro em contato com a cultura indiana. Não sei que explicação... a não ser a blasfêmica.

 

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O cineminha meu amigo resolveu reapresentar o filme ontem, quarta-feira, num horário ainda mais impróprio. Só chegay à minha cama às três e meia da manhã, pra me levantar de novo às seis e coacompanhar uma excursão de uma turma bastante agitada a Berlim.

 

O esforço pra rever o filme foi tão inconsequente como foi obstinada a busca, que me tomou hoje não menos que uma boa hora e meia do dia, para ver se encontrava uma outra sessão possível. Um dos momentos mais memoráveis dessa busca foi aquele em que pensei fazer uma viagem de três horas a Berlim para rever o filme, rever o filme de três horas, passar quatro horas esperando a próxima possibilidade de retorno a Hamburgo, passar três horas viajando pra cá de volta, chegar à rodoviária central de Hamburgo no horário contado pra ir direto pro trabalho, um outro dia de excursão. Para ser bem sincero, acho que a única coisa que me trouxe de volta à razão e me fez desistir dessa tão boa ideia foi ter visto na minha agendinha de papel que o dia dessa viagem para Berlim (já todo planejada na minha cabeça) é o de um xou de dança clássica indiana (pasmam -se todos...) para o qual tenho o ingresso reservado há um tempo.

 

No torvelino de hoje também me voltou uma citação de alguma pedagoga sobre o hábito que as crianças têm de insistir para que se lhes leia um mesmo texto muitas repetidas vezes. A sua explicação era de que a criança encontrou ali alguma questão que ela está trabalhando, e reouvir a narrativa é uma ajuda para processar o tema, elaborar uma resposta, compreender o mundo. Há pouco tempo cismei com Heated rivalry, sobretudo com o terceiro episódio, e, tirando esses dois, só me lembro de mais um filme que, já em idade adulta, me tenha feito sentir essa necessidade infantil da repetição da narrativa.    

 

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Ao longo da semana que passou entre a primeira e a segunda vez que vi o filme, ele parece ter-se tornado um sucesso de bilheteria na Índia. Com isso, começaram a pulular postagens várias com lindos e torpes edits do filme no meu instagrã, muitos dos quais foram me abrindo a compreensão para detalhes. O filme é muito rico deles. A maior parte desses edits se fez com a que julgay a música-tema mais linda da trilha, Tere Paas Main (algo como “eu estou ao seu lado”), de que compreendia nada além do que pude ler na legenda durante as minhas duas visitas ao cinema. Daí encontrei um texto com uma interpretação lindíssima da música que é, na verdade, dupla: numa versão mais longa, a voz femina canta a sua interpretação da ausência do amado, equanto uma mais curta, não a favorita dos edits, apresenta a visão masculina da ausência da amada.

 

É isso. São três da manhã, e eu estou aqui, terminando de digitar esse texto, sem saber muito o que fazer com tudo isso, mas sem sono — depois de um dia intensivo e extenuante de trabalho que se seguiu a uma noite de apenas duas horas e meia de noite de sono.

 

Ah, sim, quase esqueço: O filme se chama Main Vaapas Aaunga (algo como “eu voltarei”).