sexta-feira, setembro 04, 2026

A poética de Deus em Grande Sertão: Veredas

Uma das leituras mais difíceis que fiz na virada de 2025 pra 2026 foi a do Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa. A narrativa lenta e o excesso de detalhes em um discurso arrastado e cheio de volteiso e meandro me impediram de encontrar um ritmo de leitura, e eu acabei levando quase três meses para concluir o livro. Uma experiÇencia necessária, mas extremamente cansativa. Dele mesmo, que me lembre, só havia lido um livro de contos na época da e para a faculdade... Agora me falta ler a tese que me reconvidou à leitura do clássico, Ensaísmo visual daibertiano : o olhar múltiplo sobre Grande Sertão : Veredas, de Guimarães Rosa de Wanessa Loyo. Será certamente outra aventura e me trará saudades dos meus tempos de Juiz de Fora e das visitas aos originais de Daibert.

No começo da leitura, aí antes da página 100 das 552 que compunham a minha edição (a de bolso da Companhia das Letras, que deixa bem a desejar em atualização ortográfica, diga-se de passagem), destaquei três trechos em que GR se refere a Deus e a religião, pela poesia e pelo encanto que me causaram.

 

p. 20

“Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que é a salvação-da-alma... Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco a ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio... Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue. Rezo cristão, católico, embrenho a certo; e aceito as preces de compadre meu Quelemém, doutrina dele, de Cardeque. Mas, quando posso, vou no Mindubim, onde um Matias é crente, metodista: a gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia, e ora, cantando hinos belos deles. Tudo me quieta, me suspende. Qualquer sombrinha me refresca. Mas é só muito provisório. Eu queria rezar — o tempo todo.”

 

p. 26-27

“o diabo, é às brutas; mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro — dá gosto! A força dele, quando quer — moço! — me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho — assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza.”

 

p. 59

“Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar — é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dor. E a vida do homem está presa encantoada — erra rumo [...]”

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