quinta-feira, abril 05, 2012

Sobre revistas, sovineza e heróis, nacionais ou não

Há duas histórias: a história oficial, mentirosa que se ensina, a história ad usum Delphini; depois, a história secreta, onde estão as verdadeiras causas dos acontecimentos, uma história vergonhosa.

Balzac, Ilusões perdidas, III, 32 (apud Paulo Rónai, Não perca o seu latim, p. 22)


No mês passado, num golpe de coragem, comprei quatro revistas na banca de jornal. Digo um golpe de coragem porque, é bem verdade, primeiro, que cada revista custa de dez a treze reais, hoje em dia, e fica bem difícil deixar de ser mão-de-vaca e comprar um número, muitas vezes por causa de um só artigo que se viu anunciado na capa. Segundo, que eu sou canguinha que só com certas coisas.

Também no mês passado, minha mãe e minha sobrinha estiveram em casa por uma semana. Num dos passeios, os chinelos da minha sobrinha (que é linda) arrebentou-se. Entramos na C&A, e ela escolheu um par de havaianas, que eu paguei sem hesitação. Depois me dei conta de que faz tempos que estou querendo um par de havaianas novas e que não o comprei, ainda, porque sempre o acho caro. E eis aí quão paradoxal eu posso ser.

Voltando às revistas, uma delas é a Vida simples (edição 115, fevereiro de 2012), cujas matérias de capa vez por outra me chamam a atenção. Nunca a havia comprado, lido ou sequer folheado, e tive uma bela surpresa: ela tem imagens lindas, um ou dois artigos interessantes, muita informação útil em gotas, pouco que eu tenha julgado realmente bom.

Outra das quatro é a excelente Mente cérebro (ano XIX, número 229), que conseguiu cinco estrelinhas: os artigos são muito interessantes, há também informações úteis esparsas e (pasmem!) muito que eu achei realmente bom. Depois de mais de dez anos, surge diante dos meus olhos uma revista que talvez eu venha a querer assinar. À parte o artigo sobre sonhos, motivação da compra, há um intitulado Fábrica de heróis, da página 39 à 43 (relativamente curto, mind you), que descreve o trabalho de um psicólogo da Universidade de Stanford, Philip Zimbardo, que vem desenvolvendo projetos no intuito de “ensinar” coragem e altruísmo. O texto é de Giovanni Sabato, identificado como jornalista científico, e me agradaram as fotografias selecionadas, os pequenos trechos em destaque, a seção “Para saber mais”, ao fim do artigo e, como não podia deixar de ser, a imagem bastante criativa que abre o artigo.

Mas não só para tecer esses elogios é que me pus a escrever esta postagem. Tem mais. O meu fascínio com heróis (não diferente do que tenho com sonhos) já me havia feito comprar, no ano passado, um exemplar da Revista de História da Biblioteca Nacional (ano 6, número 62), que tem justamente o artigo A morte do herói: ascensão e queda dos mitos nacionais como matéria de capa. Como parece ser recorrente nessa revista, o artigo tem redação inteligente (a autora é Vivi Fernandes de Lima) e discute, entre outros tópicos relevantes, o que leva uma figura a tornar-se herói, num processo que é descrito como concomitantemente histórico e político. Cita-se muita gente: Winston Churchill (“sangue, suor e lágrimas”... risos), logo na primeira página; Tiradentes (excurso: acabo de ler o Romanceiro da Inconfidência... adoro a Cecília); Reinaldo Ferreira, poeta espanhol do século XX... A matéria se encerra com um “infográfico” que mais vale pelas divertidas caricaturas de Vitor Vanes, na página 23, e pela lista de nomes oferecida, separados pelos Estados nacionais em que as personagens célebres atuaram, que pelos comentários biográficos, tão resumidos que beiram a inutilidade.

Não sei se já quero encerrar este texto. Estou com a sensação de que não disse o que vim para dizer, se que é que de fato havia algo.

Pulando de heróis para super-heróis, não consigo pensar num brasileiro. O meu favorito, desde sempre, é o Batman, que é norte-americano. E acho que todos o são, não? Quando penso em super-herói brasileiro, só me vem à mente o Overman (do Laerte), que sempre me lembrou em muito o Chapolim, que é quase nacional... Mas o Overman é um super-herói quase anti-herói... será que só temos isso?

Daí que encerro com uma comparação anedótica, que ouvi, certa feita, do Prof. Peterlini: o latinista brasileiro é como um padrinho de casamento que se prepara para a cerimônia, no seu fraque, e, ao chegar ao evento, notando que todos o encaram, descobre-se sem a calça. Troque-se “latinista” por “brasileiro” e muito se explica... até mesmo os nossos super-heróis, ou a ausência deles. Imagem eterna da excelência (?) a que falta o mais óbvio e básico. Triste conclusão, esta minha.


sábado, março 31, 2012

S.T.A.L.



Estou com umas quatro postagens prontas, guardadas para revisão. Para que o mês não passasse em branco, resolvi dar o ar da graça por aqui hoje. Depois de quase três semanas de estrada, com perdas e prejuízos consideráveis, mas ganhos bem vultosos, achei que o melhor seria um texto leve. E aí vai a narrativa de um desespero pré-Recife...

Daí que eu vou ao banheiro escovar os dentes e pôr o aparelho antes de me deitar e, perto do botão da descarga, dou de cara com aquele bicho esquálido, semitransparente, com as coisinhas lá dentro meio à mostra. Não, não havia nada de engraçado. Peguei a vassoura e tentei espantar o bicho pelo basculante, o mesmo por onde, muito provavelmente, ele tinha entrado. Como desgraça pouca é café pequeno, ele foge pro meu boxe e vai patinhando no azulejo até para cima do meu chuveiro. Danou-se.
Ainda com a vassoura, vou tentando fazer que ele se mova na direção da saída, mas nada. Recurso extremo: pego o inseticida que mata baratas e outros bichinhos e ataco. Assustado com a nuvem que foi na sua direção, o animal dá um salto mortal, de costas, com três loops e duas batidas de cauda na minha direção. Eu me deito por volta da uma, e devia ser uma meia noite e meia quando o edifício inteiro se deu conta da potência da minha voz.
Com muito custo, cheguei um pouco mais perto do boxe e vi a coisa no chão. Andando, logo, viva. Foi subindo pela parede e, fugindo da minha nova tentativa de encaminhá-la para a saída do meu boxe, do meu banheiro, da minha vida, ela se assusta novamente e entra no conduíte dos fios de instalação do chuveiro.
Longe dos olhos, mais ou menos longe o meu temor. Deixei a luz do banheiro ligada (pra quê? pra ela não ter que tatear no escuro?) e, abajur ligado, entrei na lide de uma noite de sono turbulento, partido em três, com abajur ligado e sonhos de répteis viscosos e nada católicos.
De manhã, bati na porta do banheiro antes de entrar, não sei se para fazer barulho e ela se esconder da minha presença ou se para avisar que ia entrar. Afinal, que fosse minimamente cordial a convivência que se instaurava, malgrado meu. Nada dela, senão o rabicho que ela ejetara no chão do meu boxe.
Havia uns dias já, eu tinha comentado da necessidade de lavar o banheiro, que estava bem sujinho. Pois já que a inquilina indesejada se tinha ido e deixado uma lembrancinha, nenhum momento poderia ser melhor. Vassoura, sabão, cândida e desinfetante, além de outros apetrechos, para, depois de o banheiro já lavado e limpo, me brotar um corpo atrás da porta, que a água de enxágüe tinha trazido não faço eu a menor idéia de onde. Que coisa medonha, molhada, agora acinzentada... morta.
E a gente acharia que esta postagem se encerra aqui, mas que nada. Nessa hora veio a reflexão de como era bom morar no dormitório estudantil, onde sempre havia alguém que se encarregasse da solução desses problemas funerários, quando raros eles se apresentavam.
Continuação do íncubo, armo todo um esquema em que a pá fica numa posição x para que, com um jato de água lançado da direção y, a lagartixa l trace um caminho → e caia na pá. Uma vez executado o cálculo, mais uns dez minutos de controle de respiração até eu ter coragem de pegar no cabo da pá, o cadáver (caro data uermibus) seria lançado à privada, e a descarga se encarregaria de escrever o the end dessa saga. Mas eis que carne ainda não estava pronta para os vermes e se mexe na placa plástica amarelo-ovo.
O grito que se seguiu foi de pulmões que eu desconhecia ter, mas que muito provavelmente são fruto dos dois anos de natação que andei fazendo.
Ato contínuo, o inseticida saltou de volta à minha mão, e eu, de um ponto atrás da soleira da porta onde nenhuma nova surpresa pudesse me encontrar, escondia o corpo e punha à vista somente o dedo indicador, assassino que fazia pressão a intervalos mais ou menos regulares e criava uma nuvem letal apontada pra bichana sem cauda. Em algum momento desses minutos que pareciam uma eternidade, ela se cansou de ser ofendida por aquele gás e se arrastou para trás da vassoura, que estava ali parada do lado do vaso. E lá eu vi, por entre os fios da piaçava, a pobre agonizar. Não vou mentir e dizer que o medo me impeça de me apiedar. A cena é tétrica, e, a gente sabe, eu já a havia visto, em outro momento nigredo da vida, um rato passar pelo mesmo drama.
A água que tinha iniciado o enxágüe do banheiro chegava a luzir com a gordura do inseticida, uma lata inteira, que tinha sido lançada no banheiro. Temi até que eu mesmo me intoxicasse, depois, quando, uma vez recolhido o corpo e lançado ao seu sepulcro subaquático, pelas mãos de uma amiga gentil que havia sido chamada pelo telefone (quem disse que eu dava conta da tarefa? eu era uma pilha de nervos...), relavei o chão do banheiro duas vezes, com muito sabão e água, Pinho Sol e olhos que escrutinizavam as paredes e o teto a cada cinco segundos.
Eu queria muito que esses bichinhos não entrassem na minha casa... isso evitaria tensões enormes, que se estendem por dias a fio após o episódio, e salvaria a vida dessas criaturinhas praticamente inofensivas que o meu medo insano transforma em monstros famintos pelo meu sangue e equilíbrio emocional, sempre tão arduamente conquistado...