quinta-feira, maio 14, 2020

Bilan



Correntes literárias na pandemia, leituras de minha própria escolha, email de ex-aluna, leitura obrigatória de trabalho, leitura obrigatória de curso que estou fazendo, leitura de curiosidade criada por outra leitura feita: de modos muito diversos, meu “isolamento” tem sido povoado de Literatura por todos os lados. Uma amiga perguntou se eu havia lido certo autor, e eu não tenho memória de tê-lo feito, apesar de haver uma curta citação sua numa postagem minha de oito anos atrás. Procurei nas minhas listas de leituras, nada. E daí me dei conta de que não preparei as listas nos últimos três anos. Como essa é uma prática que me é muito cara, mantive em mente que precisava atualizá-las. Hoje vi o porquê do atraso: Parei na de 2016, e a de 2017 é minúscula. Acho que fiquei tão frustrado, no começo de 2018, ao ver o pouco que tinha lido em 2016, que nem quis publicar. Mas aqui vai a atualização.

2016
1) Algo da coleção MSP que faço para minha afilhada, mas eu nem sequer me dei ao trabalho de anotar quais títulos. Plófti.
2) Para ler romances como um especialista, Thomas C. Foster, tradução de Maria José Silveira, terminado em 7 de abril.
3) Jem & the Holograms, a graphic novel, volumes 1 & 2.
4) A Commentary on Silius Italicus Book 1, D. C. Feeney.
5) Silius Italicus, Punica 2, N. W. Bernstein.
6) Batman 66’, mas só Deus sabe que volumes, porque eu também não me dei ao trabalho de anotar.

2018
She’s not there, Jenny Boylan

2019
1) 25/1 – Love, Hanne Ørstravik, translated by Martin Aitken;
2) 19/2 – The Iliad, Homer, translated by Robert Fagles (em áudio, pela magnífica e plural apresentação do Almeida Theatre em 2015, disponível online);
3) 16/3 – Pequenas Epifanias, Caio Fernando Abreu;
4) 15/4 – Kindred, Octavia E. Butler;

5) 2/6 – L’empreinte à Crusoé, Patrick Chamoiseau (sempre! e desta vez, não diferente de algumas outras, ele conseguiu me levar aos soluços);

6) 17/6 – The Song of Achilles, Madeleine Miller;
7) 25/6 – Narrators and focalizers: The Presentation of the Story in the Iliad, Irene J. F. de Jong;
8) 30/6 – La femme aux pieds nus, Scholastique Mukasonga;
9) 28/7 – Moonwalking with Einstein – The Art and Science of Remembering Everything, Joshua Foer;
10) 18/8 – A Sibila, Augustina Bessa-Luís;
11) 24/8 – Sague Negro, Noémia de Sousa;  
12) 28/8 – Mônica — Tesouros, Bianca Pinheiro (MSP);
13) 2/9 – Norse Mythology, Neil Gaiman;
14) 30/10 – Yggdrasil, der Weltenbaum, Christin Kühl (Hrsg.)... meu primeiro livro em alemão (e achei, no geral, uma porcaria... são contos vários de autores diferentes, com maior ou menor relação com a mitologia nórdica)        
15) 4/11 – Siddharta, Hermann Hesse, translated by Hilda Rosner;
16) 1/12 – Leyendas de Guatemala, Miguel Ángel Asturias;
17) 11/12 – Batman: Hush, Joseph Loeb, Jim Lee & Scott Williams.  

Bem, 2017 foi o ano de preparação para minha saída para o Doutorado; burocracia e estresse foram as palavras-chave do ano inteiro, não me impressiona que tenha lido tão pouco, retrospectivamente, mas me assusta que tenha conseguido ler dois livros acadêmicos densos no meio de tanta guerra. 2018 foi um ano ainda mais estressante, com todas as mudanças e adaptação à nova realidade de vida na universidade e no cotidiano... um livro foi até muito... mas pode ser que eu simplesmente não tenha levado a lista a cabo como costumo fazer. Em 2019, eu me propus ler um livro em inglês mês sim, mês não, para me pôr de volta em contato intensivo com a língua em que escrevo a Tese. Descobri coisas maravilhosas, como a apresentação 2), a inventividade de 6) e a qualidade do trabalho de 7), mas nada me tocou tanto quanto a releitura de Robinson Crusoé feita pelo gênio do Chamoiseau. Este ano estou no projeto “um livro em alemão mês sim, mês não” e acabo de começar Die Berlinreise de Hanns-Josef Ortheil.    

terça-feira, abril 28, 2020

Poesia



Li esta semana no Facebook uma postagem de um pai-professor que resolveu, durante essa coisa que ninguém ainda entendeu, a tal da quarentena, ou o tal do isolamento social, educar seus filhos com projetos de pesquisa enquanto estão em casa. A experiência dele me fascinou e me acordou pra uma coisa que sempre soube e que às vezes ressurge como auto-explicação: a aprendizagem me fascina.

Tenho uma curiosidade imensa de um milhar de coisas, mas acho que pouco dela se compara à que tenho com livros, questões religiosas, arte — e  outros ramos culturais multipluriversáteis. Assino uma mala direta de um jornal chamado The Guardian, a qual me traz resenhas e coisas afins sobre literatura, em geral publicada em inglês. No meio de um dos emails, descobri Ilya Kaminsky, um poeta russo que mora nos EUA e traduz poesia russa pro inglês e etcétera (vale muito a pena caçar algo sobre ele). Ele organizou um livro de ensaios (ou qualquer coisa nessa direção) oriundos de entrevistas feitas com poetas que declaram sua relação com fé, religião, misticismo... O resultado é um mosaico doidaço, cheio de textos ímpares e reflexões inusitadas. Os ensaios-entrevista são precedidos de uma pequena biografia de não mais que uma página e se fecham com um poema do autor da vez. O livro se chama A God in the House—Poets Talk about Faith e tem sido meu companheiro há algumas semanas.

Hoje estava lendo o capítulo da Marilyn Nelson e pensando uau, que vida doida/fantástica. Alguns dos autores contam muito da sua vida (caso dela e da Jane Hirshfield), outros acabam contando uma história marcante (caso do Kazim Ali), alguns me marcam com a simplicidade de um poema curto e desembaraçado (caso da Grace Paley e da Alicia Ostriker). Quem me conhece sabe que leio livros com lápis e régua na mão, sempre sublinhando e marcando o que me pareça merecer destaque. Tava achando estranho não ter encontrado nada que marcasse no capítulo da Nelson, que é uma longa autobiografia cheia de meandros interessantes. Na última página dei de cara com duas frasezinhas densas: Minha oração todos os dias é simples: “Obrigada”. Eu só sei que uma grande parte do meu trabalho é celebração.

Também descobri a Szymborska dia desses. Que oásis!