terça-feira, abril 28, 2020

Poesia



Li esta semana no Facebook uma postagem de um pai-professor que resolveu, durante essa coisa que ninguém ainda entendeu, a tal da quarentena, ou o tal do isolamento social, educar seus filhos com projetos de pesquisa enquanto estão em casa. A experiência dele me fascinou e me acordou pra uma coisa que sempre soube e que às vezes ressurge como auto-explicação: a aprendizagem me fascina.

Tenho uma curiosidade imensa de um milhar de coisas, mas acho que pouco dela se compara à que tenho com livros, questões religiosas, arte — e  outros ramos culturais multipluriversáteis. Assino uma mala direta de um jornal chamado The Guardian, a qual me traz resenhas e coisas afins sobre literatura, em geral publicada em inglês. No meio de um dos emails, descobri Ilya Kaminsky, um poeta russo que mora nos EUA e traduz poesia russa pro inglês e etcétera (vale muito a pena caçar algo sobre ele). Ele organizou um livro de ensaios (ou qualquer coisa nessa direção) oriundos de entrevistas feitas com poetas que declaram sua relação com fé, religião, misticismo... O resultado é um mosaico doidaço, cheio de textos ímpares e reflexões inusitadas. Os ensaios-entrevista são precedidos de uma pequena biografia de não mais que uma página e se fecham com um poema do autor da vez. O livro se chama A God in the House—Poets Talk about Faith e tem sido meu companheiro há algumas semanas.

Hoje estava lendo o capítulo da Marilyn Nelson e pensando uau, que vida doida/fantástica. Alguns dos autores contam muito da sua vida (caso dela e da Jane Hirshfield), outros acabam contando uma história marcante (caso do Kazim Ali), alguns me marcam com a simplicidade de um poema curto e desembaraçado (caso da Grace Paley e da Alicia Ostriker). Quem me conhece sabe que leio livros com lápis e régua na mão, sempre sublinhando e marcando o que me pareça merecer destaque. Tava achando estranho não ter encontrado nada que marcasse no capítulo da Nelson, que é uma longa autobiografia cheia de meandros interessantes. Na última página dei de cara com duas frasezinhas densas: Minha oração todos os dias é simples: “Obrigada”. Eu só sei que uma grande parte do meu trabalho é celebração.

Também descobri a Szymborska dia desses. Que oásis!

quinta-feira, fevereiro 20, 2020


"It was funny to see him like this, in love and all, or at least in the grip of a full-blown memory crush. Mostly Steve fell in love with ideas, which he embraced with an infinite care and delicacy. Books had long ago replaced people in his hierarchy of importance. But for every shelf of important poets and new world scientists there have been affections of devastating intensity, often involving people he might have kissed once in a bar lineup at the Shaft, or who walked out of the corner of one eye as he stood waiting to get change at the laundromat. Some, he was nearly embarrassed to admit, he had never actually spoken to, or even touched. But the mention of a name, the recall of an insolent bicep, even a coffee stain on a table might be enough to raise the terrible spectre of longing once more. And each time it happened he announced, with all the cheer of the BBC voice charged with reciting the time to the nearest minute, 'I'm in love.'"

The Steve Machine, a novel by Mike Hoolboom, p. 100