Leituras de 2025
1) 14/1 –
Verena Göttsching und Stefano Marino, Interpretieren im Lateinunterricht –
Ein Handbuch
A grande leitura de coroamento da minha qualificação de adaptação.
Dos diversos sentimentos e raivas que passei ao longo daquele ano e meio, que se encerrou de fato com o final do contrato de
trabalho no dia 31/1/2025, esteve a raiva do não poder aprender. Ou pelo menos essa
era a sensação a cada vez que se mencionava algo que suscitava meu interesse,
sem que eu pudesse perseguir o tema – por falta de tempo (já que tanto dele era
comido pela tal qualificação) ou por falta de energia (já que 99% dela era
devorada pela tal qualificação). Das fases ou passos que se seguem como
metodologia para o ensino de Latim aqui no Zale, o único que me pareceu
realmente novo e muito interessante foi o da interpretação. O bacana desse
livro é que ele trabalha a interpretação de diversas perspectivas e ainda se dá
o tempo de fazer algumas observações mais gerais que me ajudaram muito a
compreender o conceito por trás da prática.
2) 15/1 – Adolfo Bioy Casares, Historias de amor
Este senhor teve duas chances. A primeira foi com um romance chamado La
invención de Morel, que foi leitura em um dos meus cursos de espanhol, acho
que B1 ou B2. Acredito que uma
terceira não haverá.
3) 28/2 – Ismail Kaplan, Das
Alevitentum – Eine Glaubens- und Lebensgemeinschaft in Deutschaland –
trechos
Li dois curtos trechos
deste livro: Richtziele alevitischer Erziehung (p. 87-91) e Alevitentum
als Religionsunterricht in den Schulen (p. 92-100). Tomei
conhecimento do livro depois de uma formação, junto à Secretaria de Educação,
sobre o Alevi (assim traduziram o nome da religião no título do livro de Remzi
Kaptan, Doutrina Alevi, facilmente encontrável em pdf pela internet).
Como ele estava disponível na biblioteca central da universidade, resolvi ler
esses dois capítulos como aprofundamento do que as seis horas de formação me
haviam oferecido. Duas impressões positivas: da própria religião, com seus
conceitos de paz e igualdade, postos em prática no cotidiano da comunidade
alevita e de novo do Zale, que se esforçou para inserir a religião no programa
da disciplina escolar de Religião – a ponto mesmo de contratar professores
“importados” da Turquia para ministrarem as aulas em turco. Esse episódio não
deu nada certo: as aulas eram, àquela época, confessionais, ainda que nas
escolas, e os professores trazidos catequizavam os alunos com a doutrina do
Islã em vez de lhes ensinarem conteúdos alevitas. Ou assim se descreve a
situação no livro.
4) 2/3 – Boualem
Sansal, Abraham ou La cinquième Alliance
Um encontro muito fortuito: encontrei esse título de um autor que me
era desconhecido no meio de centenas de livros empilhados e encaixotados num
mercadinho dum pátio de igreja em Nantes. Uma leitura fascinante, com trechos
luminosos, que parte da “gesta de Abraão” na Bíblia. Concluo esta leitura
enquanto o autor faz uma guerra de fome e se permite morrer por inanição, tendo
sido preso por algo como dissidência ideológica na Argélia.
5) 8/3
– Mark Russell, Richard Pace, Leonard Kirk and Andy Troy, Second Coming
Acabo de ler os três volumes de Second Coming, o segundo deles
na tradução em espanhol por causa de falta de atenção quando da encomenda. O
divertido e novo do primeiro volume se diluíram muito já no segundo, e o
terceiro, com o seu fim aberto, sugerindo um quarto volume, me desanimou
bastante. Uma leitura que comecei com fome de graphic novel acabou se
tornando gibi... não creio que vá ler o quarto ou os próximos volumes que
venham a ser criados.
6) 5/4 – Jona
– Vorbild der Auferstehung in Günter Lange, Kunst zur Bibel – 32
Bildinterpretationen
Dez páginas (96-106) de um estudo interessante de fontes,
representações e possíveis leituras de fé para uma página de ilustrações
(miniaturas) da Biblia pauperum.
7) 29/4 –
George Saunders, Liberation Day – Stories
8) 24/5 – God
save the queer – Catéchisme féministe, Michela Murgia (traduit de l’italien
par Raphaelle Claudios)
Um livro tocante, com ideias frutíferas que demoram um pouco para
começar a florescer, mas que encantam à medida em que vão se aprofundando. A
autora parte da experiência pessoal de individuação na sua própria fé cristã católica
e narra como seus questionamentos foram se tornando uma interpretação muito
própria (e bela!) da sua religião. De especial encanto são os capítulos da sequência
que se inicia com Une autre Trinité est possible: pela apresentação de
um seu episódio de “crise de Stendhal”, Michela passa a uma leitura muito
especial do ícone da Santa Trindade do
russo Andrei Rublev. Duas joias preciosas. Na minha tradução, essa
interpretação vai da página 117 até o
capítulo que se encerra – ou pelo menos o que achei interessante na leitura – na
página 175. Outro trecho formidável (além do que já transcrevi em outra
postagem) é o capítulo Le Messie queer, que, na minha tradução, vai da
página 177 à 187, uma leitura tocante do texto de João 10, 7-10 e 24, em que
Jesus se apresenta como a porta para as ovelhas.
9) 10/6 – Weltreligionen: Hinduismus, Werner
Trutwin
Na verdade, um livro didático feito pra Oberstufe (algo como o
ensino médio, mutatis multis mutandis). Um trabalho muito sério, de
pesquisa muito rica, com uma organização didática do conteúdo como nunca vi em
nenhum dos livros introdutórios ao tema a que tive acesso até hoje. Desde que o
descobri e comecei o meu curso de hinduísmo online (Hindu Academy, a
plataforma do também muito didático Jay Lakhani), escolhi esse título para ser
meu “manual de acompanhamento”. O curso ainda está em andamento, com as suas
cento e tantas lições, de uma profundidade e uma beleza que eu não chego a
conseguir descrever, mas o livro eu concluí.
10) 19/7
– Aru Shah and the end of time – The graphic novel, Roshani Chokshi, Joe
Caramagna, and Anu Chouhan
Eu vinha paquerando os títulos da coleção havia já muito tempo, mas sempre me desanimava por causa dessa onda que virou os livros de fantasia infantojuvenil terem tantas muitas demasiadas páginas. Daí vi que saiu a graphic novel do primeiro volume da coleção e me empolguei pra ler. Foi muit bom, porque vi que é bem lindo, mas não corresponde às minhas expectativas — é realmente pensado para adolescentes, com muita aventura e sequências muito agitadas que se encaixam umas nas outras... socorro.
11) 10/8 –
Mathieu Palain, Ne t’arrête pas de courir
Quando fui a Nantes, no final de outubro de 2024, muita coisa foi
especial. A começar por ter sido meu retorno à França depois de um indesejado intervalo de dez ou onze anos, mas também porque me revi inserido
em vinte quatro horas de francês e, em consequência disso, no meu amor por essa
língua que me custou tanto esforço. Talvez tenha sido nessa viagem também que o
meu até então sob controle consumismo se libertou das amarras. Pelo tanto de
bibliotecas ótimas que tenho aqui na Alemanha, poucos são os títulos que
realmente preciso comprar – coisas muto específicas, como um livro de poemas
de uma indiana que escreve em inglês e produziu um livro que parte de Kamadev
como mote, etc. Mas ver títulos em vitrines de livrarias em Nantes e não os
comprar foi quase impossível. Voltei de lá com cinco títulos na mochila, e este
foi um deles. Um romance interessante, com trechos muito poéticos e retratos de
masculinidades ricas, foi uma leitura fluida e leve.
12) 12/8 –
Tomi Ungerer, Émile e Der Nebelmann
Dois livrinhos infantis lindíssimos, ambos lidos no próprio Museu Tomi
Ungerer, em Strasbourg, minha terceira viagem à França depois da “retomada”.
Também essa me rendeu cinco volumes nas malas do retorno, Émile sendo um
deles, o qual pretendo usar como material didático nos meus cursos de francês e
de Religião.
13) 24/8 –
Thierry Robin, Jésus aux enfers – Trois jours de la vie du Christ dont les
Évangiles ne disent rien
A cada ano que passa, cresce o meu encanto por cristãos pensantes,
capazes não só de viver sua fé com intensidade, mas também de ver a beleza dos
seus símbolos sem noções prévias acachapantes. A ideia dessa BD surge com a
leitura do Evangelho de Nicodemos, um dos apócrifos que não se encontram
na Bíblia canônica. Meu espanto se multiplica com a “poética” que as notas do
autor oferecem, onde aprendi muito e fiquei feliz mesmo de ter me permitido a
pequena crise de consumismo de Strasbourg, onde encontrei esse
tesouro numa livraria de BDs. De quebra, ainda descobri um programa de TV
francês de entrevistas com teólogas – disponível nanétchi (“La Foi prise au
mot”) e o artista holandês Joakim Skovgaard, por causa do qual penso se devo
ter outra crise (e comprar um volume de suas ilustrações para a Bíblia) ou se
fico de boas.
14) 27/8 –
Sibylle Janert, André Zirnsak, Ilaria Acerbi und Stephanie Hohndorf, Autismus
beziehungsorientiert behandeln – Handbuch zur DIRFloortime-Methode
Quando chegou à escola, em 2024, um anúncio de uma qualificação sobre
autismo, fui um dos primeiros a responder ao email, mostrando meu desejo de
participar. Meu interesse pelo tema, naquele momento, podia se resumir em dois
fatores: minha recém-saída, muito a contragosto, do emprego em que trabalhava
com crianças de cinco, seis anos e onde essas questões pareciam mais relevantes
e cotidianas; um esforço de garantir, por meio da autorização da minha
participação pela diretoria da escola, a minha permanência no emprego em que
estava – a qualificação só se iniciaria depois de o meu contrato ter terminado, e a
autorização como que pressupunha uma renovação. De mais distante, esse
interesse tinha apenas duas experiências anteriores de que eu possa me lembrar.
A primeira delas, meu único contato emocional com o espectro, um filme chamado Adam,
cuja personagem protagonista tem síndrome de Asperger. Esse filme manteve,
aliás, por muitos anos, o título de “meu filme favorito”. A segunda foi uma
experiência falhada, que quase aconteceu: eu teria sido o professor de Latim de
um adolescente no espectro, cuja escolarização se fazia predominantemente em
casa e o qual estava se preparando para o Abitur (como digo sempre e
comparando muito mal, o Enem aqui do Zale).
A qualificação foi bastante interessante, com algumas das sessões de
dia inteiro, o que eu sempre acho uma tortura. Nesse caso bem tolerável, porque
havia cinco outros colegas da minha escola inscritos, e os horários de almoço
com eles foram sempre muito divertidos e produtivos. Nessa vibe foi que busquei
o livro, cujo foco de atenção me parecia propor uma perspectiva bem distinta
das que via por todo o lado: o relacionamento. Uma questão, aliás, muito minha
nos últimos anos. A leitura é leve e a teoria (de uma prática metódica) muito empregável
e, ao que parece, muito eficiente.
15) 14/9 – Lima Barreto, O triste fim de Policarpo
Quaresma
Hoje (14/9/2025) foi a primeira vez que pude participar de um clube de leitura
iniciado por um grupo de brasileiros aqui em Hamburgo. A primeira reunião deles
tinha acontecido durante minha viagem de férias à França em agosto, perdi a
discussão do Torto arado. A do Lima Barreto foi bacana, com uma participação
quase homogênea de todo o grupo, em que estavam hoje, no Planten und Blomen, nove
pessoas presentes. O livro não agradou à grande maioria, e foi interessante ver
como cada um leu trechos, personagens, contextos e temas de forma diferente.
Feliz de ter participado, pela primeira vez na vida, de um círculo de leitura
brasileiro com leitura de texto brasileiro. O próximo título é A hora da
estrela. Já o consegui emprestado na biblioteca central da universidade.
Vamos ver se dou conta de ler a Clarice – autora que, até hoje, nunca me
interessou. Atualização de 24/2/2026: Consegui nada. As dez primeiras páginas do romance, ou seja, mais que 10%, me levaram a certificar aquilo que sempre tinha achado: não dá pra mim. E continuo sem entender o que as pessoas veem na autora, sinceramente.
16) 14/12
– Ernest Hemingway, The Old Man and the Sea
17) 24/12
– Christian Kuster, Männer Advent – ein spiritueller Begleiter
18) 31/12
– Saša Stanišić, Möchte die Witwe angesprochen werden, platziert sie auf dem
Grab die Gießkanne mit dem Ausguss nach vorne

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